A síndrome da família light

Familia lightMudanças verificadas na estrutura e nos papéis desempenhados pela família contemporânea, decorrentes tanto de severas restrições na alimentação de valores formativos quanto da configuração do ente familiar como mera unidade de consumo, tem apresentado em larga escala uma nova sintomatologia comportamental: a emergente família eticamente anoréxica.  Tal adelgaçamento familiar vem sendo observado como resultado dessa inapetência em dois campos coletivos fundamentais: na responsabilidade e na afetividade.

Despiu-se esse tipo de família de seus afazeres mais elementares na educação, no estabelecimento de limites e de possibilidades, na socialização da criança, no enfrentamento das primeiras edificantes frustrações e decepções, e na produção de uma rede de suportes afetivos.

A família que era um continente viu se transformar num arquipélago de seres insulares ligados por frágeis laços do destino. Embora seja um reducionismo, é correto sustentar que esse arquétipo familiar sem latitude para as relações dialógicas tem sido produzido pelas atuais condições materiais e econômicas da sociedade.

Esse enxugamento representado pelo individualismo exacerbado e pela ausência de convívio construtivo no exercício definido de funções, ao contrário do proclamado, não tem sido sinônimo quer de liberdade substancial, quer de atendimento das necessidades elementares.

Tornou-se bom mesmo saber apenas do ser e do estar nas ondas do sucesso, e a qualquer custo. Esse vale-tudo mostra sua cara, por exemplo, em alunos que não conseguem enfrentar reprovações e mesmo em professores que não conseguem ensinar, verdadeiramente.

Adultos dessa nova estirpe, alucinados pelo consumo, vão, sem eira nem beira, se infantilizando como se fossem exclusivamente os cúmplices amigos dos filhos, e os jovens se projetam numa força inercial de adolescência tardia que repele o enfrentar da maturidade por si só.

Nasce e se desenvolve aí, no terreno das contradições de uma sociedade desigual cujo desígnio histórico ainda está repleto de silêncios não desmascarados e de pedras que escondem o que embaixo delas se contém, a síndrome da família light, uma espécie de vitrine sem rostos.
É com se fosse um pacote embalado para trafegar entre o sujeito e a sociedade oscilando nos assentos da comunidade de sangue e da distribuição de despesas da sobrevivência.

Nessa debilidade de vínculos e de sujeitos, a família se resume a um sítio de poucos intercâmbios sociais e culturais, e se insere no sintoma do “curto prazo” que decreta a morte do sentido sorvido somente com dedicação e tempo. Essa é a “lógica do vazio” e da “passión por la nada”, como detectou o psiquiatra espanhol Enrique Rojas.

Nada obstante, impende rejeitar soluções apressadas e lineares, até porque a torre de Pisa já teria sido endireitada se a questão se resumisse a forças. De uma parte, como alertou Saramago no livro “A viagem do elefante”, no curso de certas noites outro remédio pode não haver que esperar-se pelo amanhecer.
Sem embargo, relações humanas constantes, objetivos duráveis, compreensão recíproca das falhas e dos limites, dos equívocos e das percepções diversas, com tolerância e fraternidade, são bons vestígios que podem se traduzir em prova dessa família como comunidade.

É verdade que poeticamente Manuel Bandeira reclamava dessas relações que eram (e felizmente ainda são) alcunhadas de amor. Dizia ele que o “amor não tem bondade alguma”, pois só conhece o outro a partir de si, e ao fazê-lo, quem ama não consegue de si esquecer. Ele podia ter razão. No entanto, o amor autêntico não se revela em ligações anêmicas e sim no zelo, mais com vida do outro do que consigo ou com os objetos.

Tendo presente que os dias de hoje não são, necessariamente, a antítese do pretérito, e que “o fim é lugar de onde partimos”, como escreveu T. S. Eliot, não deve a família hipotecar o futuro na reprodução acrítica de modelos sociais, simplesmente requentando o passado ou mesmo inventando um falso moderno. Uma família plural, aberta ao diálogo e ao respeito à diferença, irá perscrutar além das palavras.

Por isso, parodiando em parte Amartya Sen, é possível arrematar afirmando que “onde o sol nunca realmente se põe é no império da esperança”. Ali talvez a família se reconheça numa descendência generosa no comportamento intenso e franco, sem perder suas raízes nem deixar de nutrir-se dos valores que lhe são essenciais.

Dr. Edson Fachin

 

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